Momento Crea - Edição 28 - Outubro de 2007

Ainda estão abertas as inscrições do 3º Seminário Nacional de Acessibilidade

 

Ainda dá tempo de se inscrever para o 3º Seminário Nacional de Acessibilidade! O evento, que vem com o tema “Fácil Acesso para Todos”, é promovido pelos Crea-PE, Crea-MG e Confea, acontece entre os dias 17 e 19 de outubro. O Seminário será realizado no Recife Palace Hotel.

As inscrições devem ser feitas no www.iq.org.br/cadastro_seminario.htm. Os valores são: R$ 20,00 para estudantes; R$ 40,00 para profissionais do Sistema Confea/Crea e R$ 60,00 para o público restante. Mais informações no Bureau de Eventos, através dos telefones (81) 3463.0206 e (81) 3463.0729 ou pelo e-mail bureau@bureaudeeventos.com.br

Em vários painéis a questão da acessibilidade será discutida, tais como: Acessibilidade Digital; Acessibilidade no Transporte; Turismo, Lazer e Acessibilidade; Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa etc, além de mesa-redonda, palestras e depoimentos.

O tema Acessibilidade em Habitações de Interesse Social será abordado por Silvana Cambiaghi, no segundo dia do evento. Ela é arquiteta e professora dos cursos de Acessibilidade na Fupam-FAUUSP e SENAC, além de desenvolver um trabalho Intersecretarial na Prefeitura do Município de São Paulo, sobre a questão da acessibilidade ao meio físico, concedeu uma entrevista sobre o assunto. Acompanhe abaixo na íntegra:

ENTREVISTA

 Momento Crea-PE - O que é uma habitação de interesse social?

SILVANA CAMBIAGHI - O termo Habitação de Interesse Social (HIS) define uma série de soluções de moradia voltada à população de baixa renda. O termo tem prevalecido nos estudos sobre gestão habitacional e vem sendo utilizado por várias instituições e agências, ao lado de outros equivalentes, como habitação popular, habitação popular de baixo custo e de baixa renda. Ela objetiva viabilizar o acesso à moradia adequada aos segmentos populacionais de renda familiar em localidades urbanas e rurais.

Uma importante contribuição para a consolidação do princípio da função social da Habitação se dá a partir das conclusões da Conferência das Nações Unidas

sobre Assentamentos Humanos (HABITAT II, 1996), que elegeu os temas “Moradia adequada para todos” e “Desenvolvimento sustentável dos assentamentos humanos num mundo em urbanização”, como os maiores desafios a serem enfrentados em nível global. O Habitat II estabeleceu o conceito de “adequação da habitação”, reconhecendo que o acesso a abrigo e serviços básicos saudáveis e seguros, é essencial para o bem-estar físico, psicológico, social e econômico da pessoa.

Porém ainda vemos nos dias de hoje habitações, em especial as de interesse social, que excluem pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.

Momento Crea-PE - Um deficiente visual e um deficiente físico possuem necessidades diferentes. Como fazer para adaptar uma habitação de forma que facilite a autonomia de ambos os casos?

SILVANA CAMBIAGHI - Hoje em dia quando não se fala apenas em eliminação de barreiras arquitetônicas para pessoas com deficiência, e sim em “Desenho Universal”, que é a criação de ambientes e produtos que possam ser utilizados por todas as pessoas, inclusive a que têm alguma deficiência ou mobilidade reduzida, mudou-se o foco e passou-se a encarar a acessibilidade como uma melhoria da qualidade de vida para qualquer cidadão.

Este novo conceito passou a ter mais aceitação entre os profissionais da área de arquitetura e design, e também muitos clientes já solicitam por conta própria ambientes mais acessíveis.

Portanto quando se fala em espaços adequados para pessoas com deficiência física, em residências já estamos automaticamente auxiliando as pessoas com deficiência visual, pois não existirão desníveis, os espaços são mais amplos, porém deve-se eliminar cantos vivos, arestas, tanto na arquitetura quanto no mobiliário, sinalização sonora, portas de correr também evitam acidentes para pessoas com deficiência visual, os detalhes, podem ser desenvolvidos caso a caso conforme a necessidade do morador.

Momento Crea-PE - Quais as principais medidas que podem ser tomadas para adequar as residências às pessoas com alguma deficiência ou mobilidade reduzida?

SILVANA CAMBIAGHI - Uma residência para ser considerada adequada para todas as pessoas deve ter alguns requisitos básicos como:

1. Entrada em nível ou através de rampas ou ainda equipamentos eletromecânicos tais como elevadores ou plataformas;

2. Corredores não inferiores a 0,90m;

3. Portas e passagens com no mínimo 0,80m

4. Desníveis internos não superiores a 0,5cm e entre 0,005cm e 1,5cm devem ser chanfrados;

5. Utilização de pisos antiderrapantes em áreas molhadas;

6. Possibilidade de utilização com dimensionamento adequado para acesso ao chuveiro, bacia sanitária e pia em no mínimo um banheiro com reforço nas paredes para possibilitar a instalação de barras;

7. Dormitório com área de circulação em volta da cama e área de giro para que uma pessoa em cadeira de rodas entre de frente no quarto e saia de frente;

8. Na cozinha, espaço livre de 0,80m x 1,20m para aproximação de uma pessoa em cadeira de rodas (que ocupa a maior área dentre todos os demais usuários), na pia e equipamentos tais como fogão, geladeira, microondas, entre outros e sensores para o caso de incêndio.

9. Aproximação aos equipamentos da lavanderia.

10. Os alcances de mobiliários, comandos de tomadas, interruptores e janelas também devem ser respeitados lembrando-se que deve ter flexibilidade, pois poderemos ter crianças, usuários de cadeiras de rodas, anões, bem como uma pessoa de alta estatura.

Existem outras facilidades que podem ser analisadas caso à caso conforme as necessidades do morado, mas vale lembrar de luzes com sensores nos corredores, corrimãos em rampas e escadas , etc.

Momento Crea-PE - Como é realizado o trabalho na Prefeitura de São Paulo? Este tipo de serviço pode ser desenvolvido da mesma forma aqui no Recife e na região metropolitana?

SILVANA CAMBIAGHI - Uma das maiores molas propulsoras para o avanço da acessibilidade que ocorreu em São Paulo foi a criação da Comissão Permanente de Acessibilidade – CPA, em 1996, que é uma comissão deliberativa e não apenas consultiva. Acompanhando desde o início de sua vigência, esta Comissão é Intersecretarial e foi inicialmente vinculada a Secretaria da Habitação e Desenvolvimento Urbano da Cidade de São Paulo - SEHAB, estando neste momento vinculada à Secretaria Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida – SEPED. Outro item importante em São Paulo foi que a NBR 9050 que trata de acessibilidade, passou a ser integrante do Código de Obras de São Paulo, através da lei 11. 345/93.

Os itens mais importantes que devem ser contemplados no Recife são a formação dos profissionais ligados a projetos e construção civil para elaboração e execução no conceito do desenho universal, adequação de leis urbanísticas, inclusive a legislação federal vigente, e articulação de entidades, como vocês estão fazendo para uma mudança de paradigmas da construção habitacional, visando a qualidade de vida para qualquer usuário, inclusive os que tem deficiência ou mobilidade reduzida.

Momento Crea-PE - Quais as queixas mais comuns com relação às dificuldades encontradas pelas pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, dentro das casas e apartamentos?

SILVANA CAMBIAGHI - No Brasil observamos, de alguns anos até os dias de hoje, uma piora na qualidade de “morar”, os apartamentos foram reduzidos e tendo inúmeros cômodos, mas que na maioria das vezes possuem espaços adequados para a colocação do mobiliário mínimo necessário, isto não ocorria nas residências mais antigas.

O acesso à habitação, escadas para quartos e banheiros, portas internas com 0,60m de largura, corredores com 0,80m de largura, inacessibilidade total em banheiros, impossibilitando o uso da residência, alcance inadequado dos comandos de janelas, interruptores, quadros de luz, entre outros itens.

Na maioria das vezes as pessoas quando adquirem alguma deficiência são obrigadas a deixar suas habitações, pois elas se tornam inacessíveis à nova realidade. Os idosos também são os que mais sentem com a falta de acessibilidade, pois muitas vezes passam a vida toda pagando pela moradia própria e quando se tornam mais velhos são impossibilitados de morar nela.

Em outros países há anos já se fala em casa para a vida toda, “universal home”, casa segura para todos, nós infelizmente só agora estamos começando a sentir as conseqüências desta falta de previsão de futuro e falta de acessibilidade em nossas moradias.

Momento Crea-PE - Desde quando você está envolvida com a acessibilidade? O que você pode citar como evolução neste campo, da época que você começou a trabalhar com o tema e hoje?

SILVANA CAMBIAGHI - Eu tive poliomielite aos 6 meses e cresci vivenciando as barreiras físicas e atitudinais, fiz arquitetura em uma universidade inacessível e fui percebendo aos poucos quando morei fora do Brasil, que a realidade de nossas “Urbe” poderia ser diferente, que isso era possível e já realizado em outras metrópoles dos Estados Unidos, Canadá, Europa, etc. Comecei a me especializar no início da década de 90, ministrando o primeiro curso de acessibilidade em 1992, trabalhando para mudança de leis, parâmetros de normas, e desenvolvendo projetos e obras, inclusive fazendo mestrado e escrevendo artigos e livro sobre a questão.

Hoje acredito que já estamos em um estágio bem mais evoluído, principalmente nos edifícios abertos ao público, nas habitações ainda não foi levado em conta seriamente este aspecto, mas com estes eventos como este no Recife, sobre acessibilidade, abrimos os olhos dos empreendedores para novas possibilidades muito mais universais.