Apesar do apelo da população, Governo mantém projeto de construção de viadutos na Agamenon Magalhães

Profissionais técnicos e especialistas na área de mobilidade urbana, sociedade e autoridades públicas reuniram-se, na noite de ontem (24), no auditório do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (Crea-PE), para discutir as soluções para a mobilidade urbana na Região Metropolitana do Recife. O tema central do debate foi o projeto apresentado pelo Governo do Estado para a construção de quatro viadutos na Avenida Agamenon Magalhães e um elevado sobre o canal Derby/Tacaruna. Insatisfeitos com o projeto e a falta de diálogo, os moradores e comerciantes da área solicitaram ao Crea-PE a realização de uma mesa redonda para ampliar o debate.

O presidente do Crea-PE, José Mário Cavalcanti, disse que não poderia tomar posição pelo Conselho até o assunto ser tratado pelos conselheiros em reunião Plenária. “Mas, eu José Mário Cavalcanti, como cidadão recifense acredito que a solução para a imobilidade só dever se resolvida com uma política séria de transporte de massa. Essa solução vem dando certo em várias cidades do mundo e aqui não deve ser diferente”, disse.

O secretário Executivo da Secretaria das Cidades, o engenheiro Flávio Figueiredo, explicou aos presentes o projeto original do Estado, que tem o custo estimado em R$ 132 milhões, sendo R$ 35 milhões destinados para a desapropriação de 31 imóveis. “O projeto propõe a priorização do transporte público de passageiros. Esses viadutos são intervenções necessárias para que a gente possa implantar o corredor na Agamenon Magalhães”, ressaltou o secretário.

O ex-superintendente do Crea-PE, engenheiro civil e representante da população Stênio Cuentro apresentou uma nova proposta de projeto ao secretário, com a construção de um único viaduto ao longo do canal. De acordo com o engenheiro, não haveria necessidade de desapropriação e nem intervenções mais drásticas, além de ter um custo menor, em torno de, R$ 20 milhões.

Stênio Cuentro ainda criticou a falta de licenças para a execução do empreendimento, concedidas pela CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente) e Prefeitura do Recife. “Faltam estudos, projetos e licenças ambientais, de impacto sobre a vizinhança, sobre o trânsito, de viabilidade técnica e econômica todos devidamente aprovados pelos órgãos competentes. Faltam informações sobre como serão atendidos os pedestres e ciclistas. Falta um plano de contingência, falta um estudo das mudanças no tráfego. Falta o pronunciamento da Prefeitura do Recife, detentora legal dos poderes sobre o uso do espaço urbano, falta a CTTU emitir parecer sobre a intervenção. Falta muita coisa ainda. Falta cumprir a legislação em vigor”, apontou Stênio Cuentro.

Pelos motivos expostos, a população fez um apelo ao secretário para adiar a licitação da obra, que já está com data marcada para o dia 10 de fevereiro. Mesmo com todos os argumentos, o secretário executivo, que veio representando o Estado, mostrou-se irredutível. “Não. O Governo não pretende adiar a licitação. Ela está marcada e deve ser realizada no dia previsto”, disse categoricamente.

Os moradores temem que pela ânsia de fazer na pressa o projeto para atender a Copa de 2014, o Governo atropele várias etapas e quem sai sempre perdendo no processo é a população que paga o preço alto.  Eles estão preocupados com os impactos ambientais, com a desvalorização dos imóveis, com a poluição sonora e acessibilidade.

O professor e conselheiro Maurício Pina, especialista em mobilidade urbana, apresentou dados recentes que comprovam o crescimento acelerado no uso de transporte individual e suas consequências negativas para o bem-estar da sociedade. “A taxa de crescimento de automóveis cresceu de 2010 para 2011 foi de 8,2%. Se continuarmos nesse ritmo, a frota será duplicada daqui a 8,8 anos”, revelou.

O número ainda é mais alarmante com relação às motocicletas. “A quantidade de motos de 98 a 2011 cresceu 453,1%. Isso é muito preocupante porque as pessoas deixaram de acreditar no transporte público e cada um está tentando resolver o seu problema de forma individual”, analisou. O professor mostrou exemplos de cidades que investiram maciçamente em transporte coletivo de qualidade e que surtiu efeito positivo na mobilidade urbana.  

Mais de cem pessoas participaram do evento, que contou com as presenças do deputado estadual Ricardo Costa, da reitora do IFPE, Cláudia Sansil, do superintendente do Iphan, Frederico Almeida, do presidente da Apeet, Tales Lima, do presidente da Abenc, Marco Maciel, do presidente do Sinduscon-PE, Gustavo Miranda.

Kele Gualberto

Chefe da ASC do Crea-PE