Geologia a favor da sociedade


Brasília, 17 de janeiro de 2013

 


Atentos aos problemas causados por desmoronamentos em regiões de encostas, geólogos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) investiram em uma iniciativa social e educativa: elaborar um filme para conscientizar a população e os técnicos que trabalham em zonas de riscos e evitar tragédias na temporada de chuvas. O curta-metragem “Áreas de risco: informação para prevenção”, que está disponível na internet desde o ano passado, traz dicas úteis em uma linguagem acessível. “A ideia de fazer o vídeo surgiu da necessidade de ter mais um instrumento para educação tanto do pessoal de prefeitura quanto da população, principalmente a população”, conta o geólogo pesquisador e um dos idealizadores do filme, Eduardo Macedo, já no início da gravação. Como parte do Plano Municipal de Redução de Riscos de Mauá (SP), o curta-metragem tem a proposta de prevenir acidentes como o acontecido em 2011 naquela região, quando seis pessoas morreram durante as chuvas de janeiro. “Não trabalhamos apenas na emergência. A gente tem a ideia de que a prevenção é muito mais barata e mais fácil”, explica o geólogo Fabrício Mirandola, que também participou do projeto audiovisual e atua no Centro de Tecnologias Ambientais e Energéticas (Cetae), unidade técnica do IPT voltada para o desenvolvimento de ações associadas a políticas públicas. “Nosso trabalho com desastres naturais é extremamente social”, acrescenta o especialista, referindo-se ao objetivo de ensinar a autoproteção ao cidadão, levando o conhecimento para que ele faça o básico: identificar a situação de risco, deixar o local e chamar a Defesa Civil. Atualmente há na capital paulista 1.600 favelas, das quais pelo menos 500 têm deslizamentos. “Esse problema já está instalado”, pontua o pesquisador Eduardo Macedo, que também atua na Câmara Especializada de Geologia e Engenharia de Minas do Crea-SP. Diante desse contexto, a equipe de geólogos dedica-se a planejar medidas de proteção para essa parcela da sociedade que não pode morar em áreas mais seguras. “Como posso fazer para que as pessoas habitem um local da melhor forma, como faço isso acontecer levando em conta o ambiente físico e a ocupação sustentável?”, são perguntas que os especialistas em levantamentos geológicos se fazem durante as pesquisas. Nesse sentido, o vídeo traz sugestões para o dia a dia da comunidade, como evitar lançar água utilizada no terreno do vizinho e sempre observar movimentações do terreno, evidenciadas pela inclinação de muros, árvores e postes. Com essas atitudes, os cidadãos estarão sempre alertas para problemas como rachaduras em paredes ou início de desabamento da construção. O filme também chama atenção para o principal causador de desmoronamentos: a água utilizada nas casas. “Tem que fazer sistemas de drenagem eficientes e que levem essa água para a parte de baixo da encosta”, orienta Eduardo Macedo. Fora disso, em períodos chuvosos, a água “infiltra o solo e vai aumentando sua umidade. Além da água da chuva, o esgoto lançado nessas encostas aumenta ainda mais as chances de esse deslizamento acontecer”. Outro fator crítico é o lançamento indevido de lixo e entulho no terreno. “Esse material não tem uma liga, uma resistência. Quando chove, é mais fácil ele deslizar e atingir as moradias que estão abaixo”, alerta o vídeo que nos próximos meses será legendado em inglês e espanhol para auxiliar nos trabalhos de prevenção de acidentes em outros locais do mundo. “Fizemos um vídeo que pudesse ser reproduzido em qualquer local do Brasil. E agora vamos internacionalizá-lo”, comenta o pesquisador e roteirista Eduardo Macedo. Políticas públicas
No Brasil, o tema gestão de riscos ganhou força com a aprovação da Lei 12.608, em abril de 2012, que institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC), o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC) e o Conselho Nacional de Proteção e Defesa Civil (CONPDEC). Os profissionais que lidam com problemas relacionados a enchentes e deslizamentos aprovaram a legislação, como afirma o consultor em Geologia de Engenharia e ex-diretor da Divisão de Geologia do IPT, Álvaro Rodrigues dos Santos, em seu artigo “Áreas de risco: A Lei nº 12.608 e os limites dos alertas pluviométricos”. “O meio técnico brasileiro saudou efusivamente a aprovação. Essa moderna legislação é fruto direto das intensas discussões promovidas pelas associações técnicas brasileiras em reação ao recrudescimento das tragédias ocorridas em diversos estados brasileiros nos últimos anos”, comenta Álvaro. O texto também enfatiza que a lei tem em sua base conceitual e estratégica a abordagem preventiva, com foco na eliminação de zonas de risco e, por consequência, na redução de acidentes: “Diferentemente dos terremotos, vulcanismos e tufões, nossos desastres são todos associados a erros cometidos pelo próprio homem na ocupação de áreas geologicamente inadequadas para tanto, ou áreas que, por suas características, exigiriam no mínimo técnicas construtivas para elas especificamente apropriadas”. Para o geólogo, a questão “áreas de risco” está vinculada às políticas públicas de planejamento urbano e habitação popular. “Somente sob essa abordagem, [a questão] terá solução virtuosa e definitiva”, finaliza. Julianna Curado
Equipe de Comunicação do Confea