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Mobilidade e novos acordos abrem espaço para a Engenharia brasileira

Na manhã deste segundo dia da 77ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia em Goiânia-GO a programação seguiu com o painel “Mobilidade Profissional: Certificação de Profissionais e Acreditação de Cursos – Panorama Mundial”, em que representantes de entidades brasileiras e internacionais mostraram a situação geral da Engenharia em seus países, as possibilidades e necessidades de profissionais e como é feita a acreditação de cursos para a abertura da mobilidade profissional. No encerramento, o presidente do Confea, Joel Krüger, assinou termos de convênio com a Angola e Cabo Verde para possibilitar a mobilidade profissional entre o Brasil e estes países, e um termo de intenções com a Argentina, para que avancem os trabalhos a fim de firmar um acordo.

Presenças
Participaram da abertura do painel, além do presidente Krüger; o coordenador geral da Cooperação Humanitária da Agência Brasileira de Cooperação – ABC, ministro José Solia, representando o ministro das Relações Exteriores Carlos Alberto Franco França; o presidente da Federação Mundial de Organizações de Engenharia – Fmoi, José Vieira; o presidente da União Panamericana de Associações de Engenharia – Upadi, Salvador Landeros; o ex-diretor executivo do Colégio Federado de Engenheiros da Costa Rica, Olman Vargas Zeledón; o empresário João Casagrande; o bastonário da Ordem dos Engenheiros de Portugal, Fernando Santos; o vice-presidente da Ordem dos Engenheiros de Angola, Augusto Baltazar; a diretora da Ordem dos Engenheiros de Cabo Verde, Carla Tavares Martins; o secretário executivo da Comissão de Integração da Agrimensura, Agronomia, Arquitetura, Geologia e Engenharia no Mercosul – Ciam e ex-presidente do Conselho de Engenheiros Civis da Argentina, Enrique Sgrelli; e o coordenador da Comissão de Articulação Institucional do Sistema – Cais, conselheiro federal Evânio Ramos Nicoleit.

Krüger destacou a importância do painel que “debate este tema que faz parte do nosso planejamento estratégico, temos diversos projetos que passam pelo Conselho Federal, por meio da Cais, com o objetivo de trabalhar as questões de mobilidade e certificação profissional”. Ele citou os avanços dos últimos anos nas relações internacionais na área. “Temos atualmente uma vaga de representação do Confea na Fmoi, somos representantes das Américas no Conselho Mundial de Engenharia Civil, participamos das ações das Associações Profissionais de Engenheiros Civis dos Países de Língua Oficial Portuguesa e Castelhana, e temos um Termo de Cooperação entre o Confea e a Ordem dos Engenheiros de Portugal, dando oportunidade hoje a cinco mil engenheiros brasileiros que podem atuar em Portugal”, relata.

Além disso, o presidente cita o trabalho constante do Conselho Federal na questão de certificação e mobilidade profissional, inclusive agradecendo a equipe que atua na área.

O bastonário da Ordem dos Engenheiros de Portugal, Fernando Santos, afirma que “a Ordem é privilegiada em termos de força pela relação próxima que temos com o Confea, pois defendemos posições comuns e sintonizadas na nossa presença internacional, assim como temos boas relações com diversos outros países da América”. Ele destaca ainda que “a Engenharia deve ser uma ferramenta de desenvolvimento dos nossos países, sem barreiras internacionais, e por isso precisamos projetar os nossos profissionais para além de nossas fronteiras. A união dos engenheiros do Brasil e Portugal, e de todos os engenheiros que falam a língua portuguesa é uma grande oportunidade econômica para que sejamos a alavanca desse desenvolvimento”.

O vice-presidente da Ordem dos Engenheiros de Angola, Augusto Baltazar, agradeceu o convite para participar do evento e deu um panorama de como a questão da mobilidade profissional é tratada em seu país. Para ele, “o fator da língua é fundamental na questão do trabalho e esse é o nosso fator comum, o que nos une para as ações em prol de nossos profissionais”.

As pesquisas apresentadas por ele apontam onde os profissionais querem trabalhar, o que consideram importante no trabalho e como querem atuar diante das mudanças de mundo e de carreira. Baltazar finaliza enfatizando que “falamos a mesma língua, mas somos culturalmente diferentes, e respeitando essas diferenças devemos atuar e viver em cooperação”.

A diretora da Ordem dos Engenheiros de Cabo Verde, Carla Tavares Martins, agradeceu o convite para participar “deste grande evento que para nós é muito importante por ser um encontro de países de língua oficial portuguesa, onde iremos assinar o protocolo de entendimento entre as nossas ordens profissionais”.

O secretário executivo da Ciam e ex-presidente do Conselho de Engenheiros Civis da Argentina, Enrique Sgrelli, falou do histórico da mobilidade profissional nos países do Mercosul, onde “há 20 anos se estabeleceu a primeira norma de mobilidade, porém ainda existem pontos a serem tratados”. Ele comenta ainda que existia uma ideia inicial de que “a mobilidade seria uma como uma substituição de profissionais entre os países, mas que na verdade o que ocorre é uma integração desses profissionais, uma oportunidade de criação de vínculo para fortalecer os serviços profissionais e a troca de conhecimentos, fortalecendo assim os países envolvidos”. Ele comentou ainda que também é possível criar acordos neste sentido entre os países do Mercosul e países de língua portuguesa.

A coordenadora nacional das Comissões de Ética dos Creas e ex-coordenadora da Ciam, Carmen Eleonora Soares, contou que a aproximação em torno da mobilidade profissional “iniciou em 1989 quando as instituições de Engenharia do Paraguai, Argentina e Brasil se reuniam para tratar de questões fronteiriças. Depois, com o Tratado de Assunção assinado, foi possível iniciar as tratativas de mobilidade profissional e a nossa categoria foi a primeira a começar a discutir isso”. Ela citou ainda documentos relacionados ao assunto e salienta que “é importante mostrar como surgiu essa questão e como tem sido tratada pelos órgãos envolvidos”.

O coordenador da Comissão de Articulação Institucional do Sistema – Cais Evânio Nicoleit comenta que “este painel era um dos mais aguardados por tratar de grandes oportunidades aos profissionais, estabelecer laços de reciprocidade e para oferecermos à sociedade mundial a melhoria da qualidade de vida por meio da mobilidade profissional na Engenharia”.

A mobilidade profissional, a certificação profissional e a acreditação de cursos são prioridades no planejamento da Comissão que ele coordena. “Enxergamos essa mobilidade como uma construção coletiva, uma transferência de conhecimentos. Já temos alguns termos de reciprocidade firmados e essas ações do Confea são reconhecidas pelo governo brasileiro, o que fortalece a mobilização política para a internacionalização”, diz Nicoleit.

Painéis
O painel Mobilidade Profissional no mbito da WFEO/FMOI foi apresentado pelo presidente da Federação Mundial de Organizações de Engenharia – Fmoi, José M. P. Vieira. Ele falou da formação da WFEO (World Federation of Engineering Organizations) como uma federação para a Engenharia global, digitalização e sustentabilidade, globalização e competências dos engenheiros, mobilidade de engenheiros à escala global, WFEO e a qualificação profissional.

A WFEO foi fundada em 1968 e hoje congrega mais de cem instituições profissionais nacionais e 12 internacionais, representando 30 milhões de engenheiros. Ela trabalha com diversos comitês e grupos de trabalho.

Vieira apresentou o Relatório de Engenharia da Unesco de 2021, que emitiu mensagens-chave afirmando que “a engenharia é de suma importância no apoio ao crescimento econômico e ao aumento da qualidade de vida humana; que as inovações em engenharias são fundamentais para alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas – ODS; e que é necessário formar mais engenheiros, especialmente mulheres, com as adequadas competências para promover o desenvolvimento sustentável, especialmente nos países em desenvolvimento”.

Ele apresentou o plano da WFEO 2030 com os seguintes princípios para ação: apoiar o ensino de alta qualidade; resultados de aprendizagem que atendem às necessidades da indústria; qualificações de engenharia reconhecidas nacional e internacionalmente; desenvolvimento profissional contínuo; apoiar o registro nacional e internacional para o reconhecimento das qualificações e experiência profissional dos engenheiros; estabelecer uma plataforma internacional para padrões de Engenharia.

Vieira mostrou os ODS que estão mais próximos ao trabalho das engenharias e nos quais a entidade está focando seu trabalho: 4 Educação de qualidade; 5 Igualdade de gênero; 6 Água potável e saneamento; 9 Indústria, inovação e infraestrutura; 11 Cidades e comunidades sustentáveis; 13 Ação climática; 16 Paz, justiça e instituições eficazes; e 17 Parcerias e meios de implementação.

Encerrando, ele falou das competências exigidas dos engenheiros nesta era de globalização, entre elas liderança, comunicação e o envolvimento com questões sociais, políticas e éticas para a sustentabilidade. E então, falou de que forma a WFEO atua na qualificação profissional.

O presidente da União Panamericana de Associações de Engenharia – Upadi, Salvador Landeros, apresentou o painel Desafios do exercício profissional nas Américas. Ele falou dos desafios das engenharias e das competências que os profissionais devem ter para trabalhar nestes desafios.

“A engenharia deve resolver problemas tecnológicos de maneira eficaz para melhorar a qualidade de vida das pessoas, satisfazer as necessidades da população e impulsionar o desenvolvimento econômico”, entre outros objetivos. Para isso, os profissionais devem desenvolver cinco principais competências: boa relação interpessoal, liderança colaborativa, pensamento estratégico, solução criativa de problemas e conhecimento comercial (negócios, indústria e projetos).

Ele reforçou ainda como as engenharias podem impactar positivamente nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, quais são as principais tecnologias emergentes no momento e quais disciplinas seriam necessárias na formação dos profissionais para trabalharem estas competências.

Olman Vargas Zeledón falou sobre a Acreditação de cursos – reflexões sobre o caso da Costa Rica. Ele explicou o que é uma agência de acreditação, como foi a formação da agência e como funciona o reconhecimento internacional, como os países que estão em acordo devem reconhecer as competências e atributos dos graduados nos cursos das Engenharias.

Encerrando, Zeledoón deixou algumas reflexões: “os países que não participam destes acordos internacionais perdem competitividade e oportunidades para os seus profissionais da Engenharia; cada vez mais os países trabalham para acreditar os seus cursos e alguns inclusive para ter suas próprias agências; a acreditação de um curso abre um grande número de possibilidades para os graduados destes programas”.

O empresário João Casagrande apresentou o painel Desafios e oportunidades para a engenharia brasileira, mostrando um panorama geral da situação de logística e infraestrutura no país. “Hoje o Brasil é o 56º país em questão de logística e o 102º em infraestrutura. Isso mostra que temos muito que investir neste campo, pois temos diversos problemas de infraestrutura portuária como filas, estradas mal estruturadas, enfim, questões em todos os modais de transporte”, diz.

Casagrande mostrou dados que garantem que o Brasil é um grande produtor e exportador de muitos produtos agrícolas, estando em primeiro e segundo lugar no ranking mundial de itens como açúcar, café, suco de laranja, soja, carne de frango, carne bovina, entre outros. “E a previsão de crescimento exponencial nas exportações para os próximos 30 anos é grande, porém ainda falta muito nessa questão de infraestrutura”, relata. O painelista explicou que tem ocorrido muitos investimentos com parcerias público-privadas e que existe a previsão de 30 bilhões em licitações na área para os próximos 10 anos.

O ministro José Solia, destacou em sua fala, contando sobre as ações de cooperação, que “o Brasil acredita no valor insubstituível da cooperação, tem pleno respeito e sabe as necessidades das demandas dos países que ajudamos”. Ele afirma que a cooperação tem sido um dos pilares da integração comunitária e que isso é feito sem nenhum acordo de retorno. Solia cita que a mobilidade profissional pode contribuir muito para a estratégia do trabalho em conjunto dos países lusófonos na gestão dos recursos hídricos e questões de saneamento para os países que precisam, em programas de apoio ao desenvolvimento nestes países.

O bastonário da Ordem dos Engenheiros de Moçambique, eng. Feliciano do Rosário Dias, afirmou que “a mobilidade profissional é um tema atual para o mundo e principalmente para os nossos países, e que espera poder em breve também assinar um convênio com o Confea”.

Marlene Kanga, representando a Fmoi, contou a história da entidade e diz “se sentir orgulhosa por participar deste evento realizado pelo Confea, um dos membros da entidade”. Ela citou a publicação de uma declaração com o compromisso de aumentar o envolvimento da entidade nas ODS com três principais ações: aumentar o número e a qualidade de graduações em engenharias, apoiar o desenvolvimento de sistemas de educação em Engenharia e apoiar o desenvolvimento de instituições de educação na área. Ela citou ainda a importância do benchmarking entre os países para a acreditação internacional de cursos, citou o reconhecimento da entidade em países da Europa e ações de aproximação com outras regiões.

Com informações do Confea.

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