“Não existe proteção 100% contra enchentes”

Em junho do ano passado, Pernambuco sofreu com cheias e enxurradas de grandes proporções. A Mata Sul do Estado foi a mais atingida. Outros estados como o Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo também foram castigados pelas chuvas intensas neste ano. Mais recentemente, a população do Japão está assustada com os prejuízos irreparáveis causados pelo tsunami e terremotos. O mundo não está livre de catástrofes naturais, o que pode acontecer independente da ação do homem. Com o objetivo de contribuir com experiências que estão reduzindo os danos causados por desastres naturais, o professor alemão Jürgen Stamm esteve no Recife, na última segunda-feira (14), no I Seminário Desastres Naturais – Técnicas de Prevenção, promovido pelo Crea-PE, para apresentar a palestra Gerenciamento Fluvial e de Enchentes na Saxônia.     

 
Jürgen Stamm é professor doutor da Technical University of Dresden (TUD), na Alemanha. Sumidade no assunto, Stamm explicou que a princípio o gerenciamento seria analisar as intervenções causadas pelo ser humano, verificar e avaliar o potencial de risco e tomar as medidas para amenizar os danos. “É importante retirar as pessoas das áreas de risco e evitar que sejam ocupadas novamente. A população tem que ser esclarecida de que essas catástrofes é um processo natural e que é necessário saber dos riscos que estão correndo se continuarem nos locais condenados”, disse.
 
Para o professor, é necessário um forte apoio da defesa civil nos casos de desastres. Em 2002 na Saxônia ocorreu uma enchente, com danos de nove bilhões de euros, que ocasionou a ruptura de diques do rio Elba. Houve enxurradas nos afluentes, resultando na morte de 21 pessoas. “Imediatamente após o acidente, foram feitas as medições do espelho d’água o que nos proporcionou desenvolver, para os dias de hoje, modelos numéricos e um mapa de risco”, contou. O alemão falou sobre os métodos, diretrizes da União Européia, diques e reservatórios de retenção. Stamm falou que foi aprovada uma diretriz geral que será implantada até 2015, um modelo em etapas para um controle permanente.
 
Outra ação de prevenção é verificar como as edificações que estão localizadas nas margens do rio afetam e impactam. “Uma ponte histórica foi destruída e fizemos análises para restaurar a estrutura. Procuramos saber se a ponte aumentava o risco de enchente e isso se confirmou. No caso de Palmares, tivemos imagens de uma ponte que ruiu e o conserto já foi feito. Eu acredito que a situação anterior a enchente é a mesma, em um próximo acidente a altura será ainda maior”, disse.
 
Segundo o professor, é possível prever se a enchente vai ser mais ou menos intensa de acordo com os mapas de risco. “O mais importante em todo esse processo que passamos foi desenvolver um modelo de dano. Modelos numéricos são importantes para a elaboração de planos. Os Mapas de risco e os planos de ação são para atuar de forma integrada, como um plano nacional. A prevenção de enchentes é uma tarefa para gerações com um alto investimento. Não existe uma proteção 100% contra enchentes”, afirmou Stamm.
 
O professor doutor Jürgen Stamm respondeu algumas perguntas sobre a catástrofe no Japão e sua possível relação com o Brasil.
 
ASC – O Japão está mesmo correndo sério risco de desastre nuclear?
 
Stamm – O risco vai depender da variação climática e da direção dos ventos. A catástrofe no Japão ainda não terminou, ela está ocorrendo. Não sabemos o fim dessa questão, muitos especialistas estão lutando para conter os danos e evitar que o pior aconteça.
 
ASC – O terremoto tem alguma relação com a interferência do homem?
 
Stamm – Não. O terremoto é um desastre natural, onde as placas tectônicas se enfrentam, é um acontecimento da natureza.
 
ASC – Já tivemos alguns registros de abalos leves. Você acredita que o Brasil pode vir a sofrer um tsunami?
 
Stamm – É preciso separar as atividades sísmicas da mudança climática, uma não tem nada a ver com a outra. As regiões litorâneas, de costa, são as mais suscetíveis ao tsunami. Mas não se pode emitir opinião generalizada porque tudo depende do relevo submarino, a situação sísmica e a geografia submarina, além da formação da costa, se é plana ou muito íngreme. Não podemos dizer nunca, mas também não devemos gerar medo ou expectativa.
 
Vanessa Bahé
ASC Crea-PE