Razões para não erguer os viadutos na Agamenon Magalhães

O transporte público não depende da construção de viadutos para ser viabilizado. Não necessita de elevados como justificativa, independentemente de ser operado por ônibus, Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs) ou metrô. Pode, muito bem, parar em cruzamentos, como os existentes na Avenida Agamenon Magalhães. Essa é a principal razão para o governo do Estado não construir os quatro viadutos previstos para a via, a principal do Recife, na visão unânime de técnicos e cidadãos contrários à ideia. A avenida representará apenas um eixo do Corredor Norte-Sul, projeto idelizado para interligar com faixas exclusivas de ônibus os extremos do Grande Recife. Na prática, responderá por menos de cinco quilômetros dos 50 previstos para o corredor, que vai de Igarassu até Jaboatão dos Guararapes, passando por Abreu e Lima, Paulista, Olinda e a capital.

Se o governo quer construir viadutos, então deve assumir essa vontade e não usar o transporte de massa como pretexto. Assim pensam muitos arquitetos, urbanistas, engenheiros, técnicos em transporte e cidadãos comuns que são contra os elevados. Os viadutos proporcionarão um benefício pequeno e temporário, não justificado pelo investimento: R$ 150 milhões. Os argumentos, inclusive, são embasados por entidades técnicas, como o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-PE) e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PE).

“O que está em discussão não é se o transporte coletivo deve ser prioridade. Isso é evidente. Discutir o modal a ser adotado também foge da questão principal. O que deve ser discutido é a cidade que queremos. A qualidade dos espaços urbanos, das calçadas”, ressalta o arquiteto e urbanista Múcio Jucá, que coordenou a elaboração de um documento entregue ao governo do Estado apontando diversas razões para os elevados não serem erguidos e assinado por profissionais da Unicap, UFPE e Fundaj.

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Os argumentos contrários à transformação da Agamenon em uma via expressa sustentam-se em quatro linhas básicas. A primeira é a imobilidade. Viadutos apenas transferem engarrafamentos, não os resolvem. Vias do entorno da Agamenon, já com problemas históricos de circulação, receberiam um tráfego que não suportariam. “Esses viadutos são um verdadeiro desastre. Equivalem às cicatrizes de um Frankenstein. A cidade é para as pessoas, não para os carros. Não é à toa que o governador sinalizou que irá rever a proposta. Acredito que é uma decisão racional e, não, eleitoral. Afinal, as razões técnicas contra o projeto são irrefutáveis”, afirma o presidente do Crea-PE, José Mário Cavalcanti.

Saindo da mobilidade, os contrários destacam o retrocesso urbanístico do projeto, lembrando que, enquanto o mundo destrói viadutos, o Recife quer erguê-los. Outro argumento é o prejuízo para os pedestres, que no lugar dos 60 segundos necessários para atravessar a via, levarão 600 segundos. Finalizando, o aspecto da segurança. As áreas embaixo dos elevados vão virar novos espaços degradados, como acontece na cidade.

Um grupo técnico vem tentando conversar com o governo para propor outras soluções à ideia original, mas até então nada conseguiu. A Promotoria de Urbanismo do MPPE também instaurou um inquérito civil público para investigar o projeto e se posicionar favorável ou contrária à obra. Foi a instituição, inclusive, quem provocou o Estado para que encomendasse os estudos de impacto, o que até então não tinha sido feito. Pegando carona na aparente ‘dúvida’ sobre a construção dos viadutos demonstrada pelo governador Eduardo Campos há duas semanas, os que são contra o projeto realizam amanhã o movimento #OcupeAgamenon, a partir das 10h, na Praça do Parque Amorim. A ideia é abraçar simbolicamente a avenida, expor e discutir ideias alternativas aos elevados durante todo o dia..

Por Roberta Soares do Jornal do Commercio
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