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Segurança Alimentar em debate no projeto Pensar o Brasil e as Américas

O coordenador nacional do Projeto “Pensar o Brasil e as Américas”, Paulo Bubach, abriu o Seminário Regional Centro-Oeste, intitulado “Os desafios da Agricultura Brasileira no Século XXI”, ressaltando o objetivo do Projeto: buscar um forte envolvimento das organizações e entidades do Sistema Confea/Crea e da sociedade para discutir as políticas públicas e levar uma contribuição dos profissionais e dos estudantes da área tecnológica para a construção de um processo de desenvolvimento sustentável para o nosso país. O evento foi realizado em Goiânia-GO, dias 5 e 6 de maio.

Bubach destacou ainda o documento desenvolvido para ser apresentado aos candidatos à presidência nas eleições passadas, cuja síntese está disponível no site do Confea, com as propostas para o desenvolvimento sustentável do Brasil. “Deixo um apelo para que todos procurem conhecer mais o projeto e se integrar nesse processo de discussão”, afirmou Paulo. “Ele é extremamente importante, principalmente, nesse momento em que o país abre um leque de desenvolvimento muito interessante para todos nós”.

O primeiro painel do evento, moderado pela engenheira agrônoma Maria Higina do Nascimento, teve como tema “Agricultura e Segurança Alimentar e Nutricional”. “Não podemos pensar o Brasil sem pensar a forma da qualidade de vida, que passa pela qualidade do alimento que recebemos”, ressaltou Higina. “É muito difícil produzir alimentos de qualidade, sem contaminantes, que mantenha a qualidade de vida e de saúde, sem causar danos ao meio ambiente, e nós temos uma responsabilidade muito grande por essa produção”, ressaltou.

Palestra do eng. agrôn. Arthur Eduardo Alves

A primeira palestra do painel foi ministrada pelo engenheiro agrônomo Arthur Eduardo Alves de Toledo, consultor em Agronegócio. Ele ressaltou que o Brasil tem um agronegócio forte, que envolve toda a economia de produtores, agricultores, pecuaristas, além da cadeia que envolve a propriedade rural. Nesse contexto, seria preciso estabelecer um conceito de segurança dentro da lógica de um mundo que cresce, não só em número de pessoas, mas de renda. “Estudos mostram que dos dez maiores problemas para a humanidade nos próximos 50 anos, cinco estão ligados à agricultura: energia, água, alimentos, meio ambiente e pobreza”, ressaltou Toledo. Para ele, trata-se de uma grande responsabilidade para os formuladores de políticas públicas. “Para alguns países, essa realidade pode ser uma ameaça; para outros, uma baita oportunidade”, ressaltou.

Para Toledo, a grande questão é saber como estão os produtores e trabalhadores rurais brasileiros. Ele ressaltou que os moradores urbanos reconhecem esses profissionais pelos produtos que eles produzem, mas não pelo valor de cada um. Contudo, a realidade desses produtores é de alto índice de endividamento, pois os custos aumentam sistematicamente, a renda reduz e a gestão é deficiente. “Temos cerca de 5,2 milhões de propriedades rurais no país. Destes, 1,2 milhão consegue se sustentar e 4,0 milhões estão em condição de pobreza por falta de políticas públicas no passado”, ressaltou.

Para ele, é preciso auxiliar as famílias, no campo. “Não se trata de esmola nem de subsídio. O que se precisa é de conhecimento e respeito, com um bom assessoramento técnico”, disse. “A atenção que a gente pede é ter projeto de nação, projeto de país e não plano de governo. No Brasil precisamos passar de país para nação, que cuida de forma estratégica daquilo que ela tem de maior potencial”, ressaltou. “É preciso pensar no desenvolvimento de pessoas, num plano de cooperação, de tecnologia e planejamento e gestão. É preciso buscar profissionais com formação técnica, mas também humanística”.

Palestra do eng. civ. Edno Honorato de Brito

A segunda palestra foi proferida pelo engenheiro civil Edno Honorato de Brito, conselheiro nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), coordenador do núcleo do Pensar o Brasil e as Américas em Roraima. Para ele, não basta elaborar uma nova proposta. É preciso ajudar a encaminhar aquilo que já foi proposto anteriormente e que mexe com diversos setores da sociedade em segurança alimentar, tanto no campo quanto nas cidades. "Fome não é somente uma questão social, mas uma questão política", afirmou. “Acredito que este seja o primeiro desafio colocado que nos leva a pensar qual é nosso papel profissional, técnico e, principalmente, social”, destacou.

A palestra teve por objetivo destacar o papel profissional, técnico e principalmente social dos profissionais do Sistema Confea/Crea no que diz respeito à elaboração e execução das políticas públicas voltadas diretamente ou indiretamente para o setor, relacionando o tema com a perspectiva da garantia de qualidade de vida e do desenvolvimento do país. “Estamos num momento em que existe uma carência de intervenção e contribuição técnica”, afirmou. Falando sobre o processo histórico do Brasil, em que houve uma exploração desordenada dos recursos, privilegiando a monocultura, entre outras causas, levou a população a morar nas periferias das cidades brasileiras, com pouca infraestrutura e em constante insegurança alimentar e nutricional, beirando a pobreza extrema. “Esse quadro surgiu da opção política em potencializar apenas um determinado setor, sem considerar os impactos causados pela distribuição não-igualitária dos recursos e pela falta de atenção dos organismos públicos aos demais setores”.

Após essa análise, Edno Honorato de Brito passou para um aspecto mais específico que é o da agricultura urbana como um dos desafios da agricultura brasileira no século XXI. “É importante que esse debate esteja sintonizado com outras linhas do conhecimento a que estamos inseridos. Não temos hoje uma legislação que reconheça e financie a agricultura urbana para que ela possa dar a sua contribuição, que não é a mesma da área rural, para a garantia da segurança alimentar e para a garantia da qualidade de vida da população”, disse, ressaltando que nessa agricultura urbana não existe agrotóxico e a tendência dela de ser de maior qualidade é muito grande. Para Brito, essa questão está associada a lidar com a produção de alimentos nas áreas urbanas, com o acesso ao alimento adequado e saudável e com as questões ambientais, por exemplo. Além disso, é preciso pensar no papel do Sistema Confea/Crea, não só em uma categoria, mas como um papel de todos os profissionais de ajudar a implementar a política pública.

Palestra do prof. Fernando Carneiro

Para concluir o painel, o professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), Fernando Carneiro, falou sobre algumas ambiguidades existentes hoje. Atualmente, segundo ele, três quartos dos indivíduos subnutridos no mundo vivem no campo, justamente onde se origina a produção de alimentos. No Brasil, segundo ele, o agronegócio é o carro-chefe das exportações: representa quase 30%. “Mas 40% da nossa população vive sob algum tipo de segurança alimentar. É uma contradição que acontece no Brasil e no mundo”, afirmou. Em estudo que fez em Unaí (MG), num assentamento e num bairro de bóias-frias, Fernando Carneiro verificou que justamente no bairro era onde havia quatro vezes mais insegurança alimentar do que no assentamento.

“Fazendo uma análise de mais de 100 estudos científicos publicados na América Latina, sob essa relação da condição de saúde da população no campo, é interessante notar a relação entre estado nutricional e propriedade da terra. Quanto menos terra as pessoas têm acesso, pior o estado nutricional”, afirmou. Segundo ele, os países que fizeram reforma agrária, como Estados Unidos e Japão, para alcançar o desenvolvimento que tiveram, essa questão foi fundamental para melhorar a qualidade de vida de sua população. Os estudos identificam isso: quanto melhor a distribuição da terra, melhor o perfil nutricional dessas pessoas. “Nós temos identificados também no processo de trabalho novos riscos associados a esse modelo de produção chamado de modernização conservadora da agricultura”, afirma. “O Brasil modernizou sua agricultura sem fazer grandes alterações na estrutura social do campo”.

Segundo Carneiro, o uso de agrotóxicos aumentou muito em virtude desse modelo. No Brasil, o uso de agrotóxicos aumenta exponencialmente mesmo com a área plantada no país não ter aumentado muito. Em relação à soja, enquanto a área aumentou 58,9%, o uso de agrotóxicos aumentou em 257,9%. “O Brasil hoje é um dos grandes produtores de alimento e, em função desse modelo, somos também o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Quem tem ganhado com isso?”, questiona. Carneiro destaca que as grandes empresas do setor são grandes oligopólios. Por exemplo, hoje o orçamento de empresas como a Monsanto ou da Syngenta é maior do que o PIB de muitos países.

Esse modelo impacta na segurança alimentar, porque o resíduo de agrotóxicos fica no alimento. “O tomate, por exemplo, chegou em 2008 com 18% de irregularidades. O pimentão, com 64%. São agrotóxicos não permitidos para aquela cultura ou resíduos acima da nossa dieta diária aceitável”, afirmou Carneiro. Para ele, é inegável que a revolução verde que se originou depois da década de 50 gerou o aumento da produção agrícola, mas ao mesmo tempo ajudou a concentrar terras, levou à intoxicações humanas, contaminação do ecossistema, degradação do solo, desperdício dos recursos hídricos, destruição de florestas, diminuição da biodiversidade.

Nesse cenário, o transgênico veio com o argumento de que iríamos diminuir o uso de agrotóxico. Mas o que a gente observa nos últimos anos, apesar de a área plantada do Brasil não ter aumentado (de 2004 a 2008, só aumentou 5%), a gente viu que no mesmo período a venda de agrotóxico aumento em 50%. No Rio Grande do Sul, aumentou em 150% após o uso da transgenia.

Para concluir, Carneiro apontou algumas soluções para essas ambigüidades. Segundo ele, uma das alternativas seria a agroecologia como um novo modo de vida rural, capaz de conjugar valores, qualidade de vida, trabalho, renda, democracia e emancipação política em um mesmo processo. “A agroecologia comparada à revolução verde, oferece a oportunidade de a gente ser menos dependente dos insumos químicos dominados por grandes empresas internacionais”, afirmou o professor. Para ele, esse tipo de agricultura é mais eficiente em termos energéticos, tem uma baixa densidade de capital e uma economia de escopo. “É um mercado que tem crescido na ordem de 20 a 30% ao ano Brasil. O que a gente propõe é uma alternativa a esses movimentos. É elaborar e implementar um conjunto de políticas públicas que viabilizem a transição desse modelo para um modelo que gere alimentos mais saudáveis para a população, para um sistema agroecológico”.

Mariana Silva e Tânia Carolina Machado

Assessoria de Comunicação do Confea

 

 

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