Dircon embargou reforma no Cannes

A reforma no segundo andar do terceiro prédio mais antigo da Avenida Boa Viagem, o Edifício Cannes, foi embargada pela Diretoria de Controle Urbano (Dircon) há cerca de um mês. No entanto, o pedido de embargo foi ignorado pelo proprietário do apartamento, que também é dono do Hotel Jangadeiro. Segundo moradores do prédio, o pavimento de 210 metros quadrados está sendo transformado em oito suítes, que devem ser alugadas como flats. A Dircon informou que recebeu a denúncia das famílias do Cannes e que o projeto de reforma está sendo analisado pela regional do Ipsep do órgão. O dono do imóvel foi intimado a parar a obra em janeiro, mas não atendeu ao pedido. Por isso, foi solicitado o embargo no início de fevereiro deste ano. O Crea-PE também notificou a obra em fevereiro. Segundo o órgão, o engenheiro responsável pelo trabalho deve se apresentar no Conselho Regional de Engenharia até a próxima semana. “Recebemos uma denúncia e fizemos diligências no prédio. Percebemos que não há um engenheiro responsável pela reforma. O proprietário do imóvel precisa ir até o Crea e apresentar a autorização de responsabilidade técnica em uma semana. Caso contrário, vamos lavrar um auto de infração”, disse a gerente de fiscalização do Crea, Giani Câmara. A diretora em exercício da Dircon, Cândida Bonfim, esclareceu que o proprietário do imóvel também deve ir até a regional onde o projeto está sendo analisado para justificar a divisão do imóvel e explicar alguns detalhes da obra. “O dono do apartamento chegou a entregar um pedido à Dircon, mas nossa resposta foi negativa ao licenciamento para as obras”, revelou. Por outro lado, o advogado do proprietário do imóvel, Roberto Catanho, garantiu que possui documento da prefeitura autorizando o trabalho no local. Moradores do prédio denunciaram que a obra nunca parou por causa do embargo. “Os trabalhos acontecem diariamente e nunca pararam desde  janeiro deste ano. Nos preocupamos também com a ausência de um engenheiro no local. Tememos pela integridade da estrutura da edificação. Outra irregularidade que percebemos foi que estavam querendo integrar a energia e o encanamento do hotel ao prédio”, afirmou um morador que não quis se identificar. De acordo com o advogado especialista em direito imobiliário Ivanildo Figueiredo, a alteração da planta do imóvel só poderia acontecer após autorização da prefeitura. “Há três passos para fazer esse tipo de obra. Primeiro, é necessário ter licença do município. Depois, todos os condôminos precisam votar a favor da obra em assembleia. Por último, é preciso registrar a modificação em cartório”, pontuou. O presidente da Ademi-PE, Alexandre Mirinda, concorda. “Se os moradores do prédio quiserem bloquear a obra, devem apresentar a convenção interna que proíbe esse tipo de reforma para os órgãos competentes”, completou. Relíquia modernista Visto como relíquia da expressão modernista por arquitetos e engenheiros, o Edifício Cannes tem oito andares. Cada pavimento tem dois apartamentos, exceto o 2º andar, que havia sido reformado na década de 1960 e tinha um imóvel. Cada unidade tem 105 m2 divididos entre quarto, sala, banheiros, cozinha, corredores e varanda. Todos os apartamentos são voltados para o mar. Construído em 1958, o prédio é da primeira geração de verticalização da Avenida Boa Viagem, ocorrida entre as décadas de 1950 e 1960. Quase 60 pessoas vivem no edifício. São 14 famílias. Os moradores mais antigos estão no local desde o fim da década de 1950. Os mais novos chegaram há cerca de um ano. O Cannes é representante da arquitetura moderna da cidade, expressão que vem desaparecendo por causa da falta de preservação. Algumas obras receberam proteção por estarem inseridas no polígono de entorno de monumentos tombados federais, como os edifícios Independência (1936), e Trianon (1937), a Secretaria da Fazenda (1939), o Edifício Inconfidência (1942) e a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (1934), todos no Centro. Já na Zona Sul, um exemplo da arquitetura moderna que foi tombado é o Caiçara, na Avenida Boa Viagem. Entrevista >> Luiz Amorim Quais as principais características do Cannes? É uma relíquia da arquitetura moderna e faz parte do conjunto arquitetônico da primeira verticalização da Avenida Boa Viagem. A primeira geração de prédios da orla do bairro da Zona Sul data das décadas de 1950 e início de 1960. Assim como o Cannes, estão os edifícios Portugal, Acaiaca, Caiçara. Inicialmente, eram para as famílias passarem férias. Com o passar dos anos e a valorização, foram se configurando como residência fixa. A desconfiguração das características do prédio representa uma perda na arquitetura do imóvel?  É até redundante para um arquiteto falar isso. Pois, para nós, é uma constatação óbvia. Apesar disso, há uma dificuldade no Recife em preservar a arquitetura modernista. As experiências arquitetônicas modernas da cidade foram muito relevantes a partir de fins dos anos 1950 e nos anos 1960. Esse período reflete a definição de uma identidade regional, de uma possível forma de fazer arquitetura local. Enquanto patrimônio, o Edifício Cannes é muito importantes para o Recife. Usos inadequados degradam o prédio e podem representar uma perda grande para a arquitetura do imóvel. Fonte : Diario de Pernambuco