A crise energética do País foi tema do debate do Crea Convida

A escassez na oferta de energia tem um impacto nos diversos setores da economia do País, a exemplo do funcionamento de rodovias, setor de turismo, agricultura entre outros

Em meio ao fantasma de um racionamento de energia no País, o Crea Convida desta última terça-feira (21) foi palco para o debate “A Crise Hídrica e o Risco de Apagão”. O tema foi apresentado pelos engenheiros eletricistas José Carlos de Miranda, ex-presidente Chesf, e José Ailton Lima, ex-diretor de Engenharia, Construção e Operação da Chesf. Eles expuseram a fragilidade do sistema elétrico brasileiro e as consequências deste atual cenário. Não apenas pela escassa oferta energética, mas, em razão dela, o impacto nos diversos setores da economia do País, a exemplo do funcionamento de rodovias, setor de turismo, agricultura entre outros.

O ex-presidente da Chesf explicou que a crise se deve, entre outros pontos, a fatores climáticos e meteorológicos como as secas e os fenômenos como El Niño, resultante do aquecimento anormal do Oceano Pacífico Equatorial. Também por conta de La Niña que, ao contrário, provoca o resfriamento do Pacífico.

De acordo com o especialista, o conhecimento das variáveis climáticas, os investimentos numa matriz energética com múltiplas fontes e um sistema capaz de interligar todas as capitais do Brasil podem atenuar os efeitos das crises energéticas na medida em que é possível utilizar as bacias como reservatórios de compensação. “As bacias do Sudeste, que representam 70% de toda a reserva hídrica do País, podem compensar a baixa produção energética em outras regiões e vice-versa”, explicou José Carlos Miranda.

Segundo Miranda, essa capacidade de compensação ocorre em função das diferentes condições climáticas existentes nas regiões brasileiras que têm variação de cheias e secas. “Assim podemos fazer a troca de energia entre regiões evitando os racionamentos e apagões. Exemplo disso pode ser visto nas regiões Sudeste e Norte do País onde, neste ano, tivemos a maior cheia no rio Amazonas dos últimos 90 anos e grande seca no Sudeste”, esclareceu.

Sobre a atual situação energética, Miranda argumentou que é crítica. Conforme sua avaliação, se as previsões dos institutos de meteorologia se confirmarem e houver mais um ano com o fenômeno do El Niño interferindo no nosso clima, a perspectiva de aumento da crise de produção de energia elétrica é ainda maior. “Portanto, há que se tomar medidas e adotar ações preventivas de redução da carga e de economia de energia o quanto antes. Assim poderemos evitar medidas de racionamento mais graves, associadas a situações de apagão causadas pela redução da queda de geração de energia elétrica nas usinas hidrelétricas, principalmente entre as 18h e 19h, quando a demanda por energia é elevada. Essa é a visão, a partir da análise de dados, das principais razões que nos fizeram chegar até aqui”, afirmou o ex-presidente da Chesf.

Para José Ailton Lima, o conhecimento histórico das bacias brasileiras é suficiente para que tivéssemos condições técnicas de atuar com maior antecedência para evitar que chegássemos à situação que considera caótica. Para ele, não tivemos alterações significativas nos fenômenos climáticos que nos dê condições de tratar o problema como uma crise hídrica. “Não temos uma crise hídrica. Estamos em meio a questões relacionadas à falta de gestão e ações governamentais. Hoje temos um sistema mais robusto, mais resiliente e, portanto, mais fortalecido que nos permite não chegarmos a situações tão difíceis”, pontuou.

O engenheiro ainda criticou a falta de conhecimento de setores que têm poder de decisão como o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, a quem cabe analisar informações que auxiliem na tomada de decisões para evitar situações críticas. “Para mim, se não chover muito nos meses de outubro e novembro não há como reverter a situação. O mais estranho é que em meio a tudo isso, neste momento, está sendo definida a privatização da Eletrobrás, maior empresa de geração de energia elétrica brasileira e as decisões para os problemas de milhões de brasileiros serão tratados por empresa privada”, disse.

Para o engenheiro eletricista Roberto Freire, que participou da edição representando o Crea-PE, “a crise é intencional. Muita gente vai ganhar dinheiro com o aumento de energia que é despachada pelo ONS”, criticou.

Após a exposição dos convidados foi aberto espaço para perguntas dos internautas, que participaram ativamente do evento on-line pelo chat da TV Crea-PE no YouTube. Você pode assistir ao debate clicando aqui.

O Crea Convida é um espaço que o Crea vem abrindo para abordar e discutir temas relevantes para a economia e sociedade do Estado. Depois da apresentação dos temas, sempre é aberto o chat para interação dos participantes com perguntas ou colocações sobre o assunto. O evento é transmitido ao vivo pela TV Crea-PE, mas fica gravado no canal YouTube.