Anita Prestes comove conselheiros e inspetores do Crea-PE

Chã Grande, 18 de março de 2013

A emoção tomou conta dos conselheiros e inspetores do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (Crea-PE) ao assistir a palestra da historiadora e economista Anita Leocádia Prestes durante o 4º Seminário Conselheiro e Inspetor Cidadão ocorrido entre os dias 15 e 16 de março, na cidade de Chã Grande, no Agreste Pernambucano. Nascida na prisão feminina no Campo de Concentração de Barnimstrasse (Alemanha), durante o período ditadura de Hitler, Anita (76 anos) apresentou aos presentes um lado ainda pouco divulgado do seu pai Luiz Carlos Prestes, o de grande engenheiro militar, que lutou a vida toda para melhorar as condições de vida dos soldados. 

É por essa atividade que o Crea-PE indicará e defenderá o nome de Prestes para receber a Homenagem do Mérito do Sistema Confea/Crea, durante a Semana Oficial da Engenharia e Agronomia, que ocorrerá, em setembro deste ano, em Gramado.   

“Estou muito sensibilizada por esse convite e gostaria de agradecer a iniciativa de propor o nome do meu pai para ser homenageado. Essa proposta me comoveu muito porque apesar de todos os esforços da classe dominante de apagar a história de Prestes, essa memória continua muito viva. Luiz Carlos prestes continua vivo na memória de diferentes setores do nosso povo. A vida de Luiz Carlos Prestes é pouco conhecida e suas ações e atividade política são distorcidas. O resgate da bibliografia me parece algo muito importante. Como historiadora tenho tentado resgatar a vida dele. A vida dele como engenheiro ainda é desconhecida pelas pessoas”, destacou Anita. 


Filho de Antonio Pereira Prestes e Leocádia Pereira Prestes, formou-se no secundário no Colégio Militar e em Engenharia Militar pela Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, em 1920, atual Academia Militar das Agulhas Negras. Foi engenheiro ferroviário na Companhia Ferroviária de Deodoro, como segundo tenente, até ser transferido para o Rio Grande do Sul. “Ele foi o primeiro da turma e escolheu a companhia ferroviária no subúrbio de Teodoro, onde trabalha por um ano. Chocou-se com a miséria dos soldados que, na maioria, eram analfabetos e vivam doentes. Ele tinha uma preocupação grande com o social deles. Por isso, ele procurou melhorar a qualidade da saúde desses jovens, melhorando o funcionamento dessa unidade responsável pelas estradas de ferro. Nesse processo, ele cria três escolas: alfabetização, primário e secundário”, explica a historiadora. 

Pelo bom desempenho na Escola Militar do Realengo, Prestes é convidado, em 1921, a ser instrutor. Entretanto, a falta de equipamentos o deixa insatisfeito por não poder trabalhar com qualidade para ensinar aos alunos. “Ele disse que não poderia receber o soldo porque não tinha como realizar a tarefa a contento e pede demissão. Mas os alunos pedem para ele ficar um pouco mais, porém a situação da falta de material persiste e ele faz o pedido de demissão definitivo. 

Depois ele é promovido a primeiro tenente e volta para a Companhia Ferroviária de Teodoro, onde continua fazendo o trabalho que fazia antes e participa da conspiração tenentista. “No primeiro levante, ele caiu enfermo de febre tifo, doença muito perigosa na época. Prestes ainda tentar participar, mas desmaia. Então, ele fica decepcionado por não ter podido participar”, comentou Anita Prestes. 

No governo de Epitácio Pessoa, como forma de castigá-lo transfere Prestes para o Rio Grande do Sul com a promoção de capitão com a missão de fiscalizar as construções dos quartéis. “Chegando lá, ele encontra situação de total descalabro porque falta tudo e nada funciona. Fica indignado porque o material de construção era de péssima qualidade e ele teria que dá o visto de que tinha recebido o material. Ele não queria compactuar com essa corrupção. Por isso, ele vai ao Rio de Janeiro para informar aos seus superiores sobre essa situação e depois pedi demissão para não compactuar”, relembra a filha. 

Em Santo Ângelo (RS), recebe uma companhia com 200 soldados para realizar o trabalho de construir estradas e pontes. “Na época, os superiores praticavam castigos corporais, mas ele não aceita isso e faz uma reforma profunda na maneira do funcionamento da companhia. Contratar cozinheiros para oferece uma comida de qualidade e faz os soldados trabalharem em horários menos quentes. Ainda fazia com que eles estudassem”, revelou Anita Prestes. Depois de prorrogar uma licença médica, em 29 de outubro de 1924, ele pede demissão para ter mais tempo para conspirar contra o governo.
 
“Com o surgimento da Coluna Prestes acabam as atividades dele como engenheiro. Ele comanda 600 homens numa situação difícil e vai para Bolívia, em 1927. Para conseguir trabalho para todos, ele faz um acordo com a Companhia Inglesa de Colonização de Terras, que oferece um salário razoável. Prestes consegue assegurar a volta de todos os companheiros que tinham interesse”, disse a escritora. 

Depois, o engenheiro vai para Argentina, onde recebe uma proposta de trabalho na cidade de Santa Fé. “Na época, ele não sabia o porque estavam oferecendo essa oferta. Getúlio Vargas já estava interessado em atrair Prestes devido o seu prestígio. O nome dele chegava a ser cotado como presidente da república na época”, destacou. 
 
Em Santa Fé, outra vez se deparou com as condições dos trabalhadores, que desmaiavam por causa do calor. “Prestes propõe trabalhar das 4h da manhã e terminava ao meio-dia. Com isso, eles poderiam estudar, inclusive, Engenharia. Ficou um ano construindo essa avenida”, contou a filha.  

Em 1930, há um golpe na Argentina e começa uma repressão muito grande contra comunista. Ele é preso e tem 24 horas para sair do País. Prestes segue para Montevidéu, onde ele fica desempregado. “Conseguiu trabalho de engenheiro, mas ganhava como capataz. O trabalho era muito pesado, mas era o que conseguiu para sobreviver”.

No ano seguinte, O Partido Comunista da União Soviética investe em Preste e o convida para trabalhar naquele país, que enfrentava grave situação, pois não tinha mão de obra especializada. Ele aceita, mas com a condição de levar a mãe e as irmãs. 
 
Livro

Anita Prestes contou que há 30 anos pesquisa a vida dele em diferentes momentos. Já está agendado o lançamento no dia 21 de março, às 19h, na sede do Conselho do Crea-PE, do livro “Luiz Carlos Prestes – O combate por um partido revolucionário (1958-1990)”. A entrada é gratuita. 

Kele Gualberto
ASC do Crea-PE