Crea Convida discute os desafios da bacia leiteira de Pernambuco

Um importante ponto de convergência entre produtores de leite e empresas de beneficiamento e produção dos laticínios ficou clara na edição do Crea Convida da última terça-feira (31), que tratou sobre os desafios da Bacia Leiteira de Pernambuco no Pós-pandemia. A falta de um trabalho coletivo e colaborativo de toda a cadeia é hoje o grande entrave para o crescimento do negócio. Essa foi a opinião do presidente do Sindicato dos Produtores de Leite de Pernambuco (Sinproleite), Saulo Malta, e do proprietário da empresa Bom Leite, Stênio de Andrade Galvão. 

Os convidados expuseram que tanto a venda quanto a compra do produto passam por situações sem um balizamento que possa servir para que toda a cadeia se beneficie com o negócio, o que poderia acontecer a partir da criação de uma cooperativa que visse todos os processos que envolvem a atividade como um único negócio.

De acordo com Stênio, a lei da oferta e da procura no setor é perversa. “Se sobra leite, os produtores vendem aos queijeiros a preços baixos e, na falta do produto, o que resta é vendido a preços exorbitantes às empresas”, se queixa.

Essa prática é ainda mais prejudicial quando se verifica que no ano passado, quando muitos setores passaram por grande crise em função da pandemia, não houve, para os produtores nem para as indústrias de leite, tanto prejuízo, já que os gêneros alimentícios continuaram sendo vendidos. Para ele, o pior momento está sendo agora. “Todos os insumos subiram. Os produtores investem muito e têm que nos passar o leite também mais caro, só que o mercado não está absorvendo a produção de laticínios e se aumentarmos não venderemos nada”, explicou Galvão.

O empresário falou ainda que, apesar de uma tímida melhora em virtude da retomada das aulas, os gastos com a coleta de leite por estradas desgastadas e as condições de transporte que ocasionam a perda da qualidade do leite, também são fatores preocupantes.

Para Saulo Malta, a perversidade nas negociações começa com a compra do leite em estados que têm incentivos fiscais como a isenção de 100% do ICMS. “A situação dos produtores de leite em Pernambuco é crítica, tudo subiu: ração, a saca do milho, a soja. Só não aumentam os valores pagos aos produtores de leite. Antes, a taxação do leite que entrava no estado era de 18%, agora voltou a ser de 12%”, lamenta.

De acordo com o presidente do Sinproleite, os custos da produção leiteira aumentam todos os dias, enquanto as indústrias não compram o suficiente para suprir as necessidades dos produtores.

Malta avalia que seria importante que o governo pudesse ajudar a categoria praticando a mesma política econômica que aplica para os produtores do leite de cabra que, diferente dos de leite bovino, não pagam impostos. “Não há concorrência entre as indústrias. Durante a pandemia nosso setor não sofreu muito porque não parou, mas, agora o aumento do dólar, que baliza o valor dos grãos, nos faz passar por uma crise que nunca passamos antes”, analisa.

Para o engenheiro agrônomo e coordenador da Unidade de Gestão Territorial do Sertão do Araripe/ProRural Burguivol Alves, que participou como debatedor, as questões ligadas a Agricultura em Pernambuco precisam de políticas estaduais como a melhoria das estradas. Burguivol defendeu ainda que os produtores pernambucanos possam ter acesso a políticas macro capazes de baixar os custos tanto dos produtores quanto das indústrias por meio de assistência técnica que possibilitaria uma produção sustentável. “Não estamos tendo esses problemas apenas em função da alta do dólar. A falta de políticas públicas e a queda do poder de compra das classes C e D também são reflexos observados no contexto.

Os números da atividade no Estado – Pernambuco é o segundo no ranking da produção de leite do Nordeste. Mais de 60 mil produtores são responsáveis pela marca de aproximadamente 2.3 milhões de litros de leite por dia. No Estado, 27 municípios pernambucanos integram a bacia leiteira, em maioria no Agreste Meridional e no Sertão do Araripe, onde são produzidos queijos como o coalho, manteiga e mussarela, além de manteiga e doce de leite. Já o rebanho bovino é de 2,1 milhões, com 67 estabelecimentos lácteos registrados, sendo uma granja leiteira, nove usinas de beneficiamento de leite, 15 fábricas de laticínios e 42 queijarias artesanais, além de outras 74 em processo de formalização.